De acordo com Mariza Theme que liderou um estudo juntamente com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Brasil uma a cada quatro mulheres sofrem de depressão pós-parto. Os principais sintomas são medo, culpa, irritabilidade, ansiedade, indisposição, tristeza, insônia, desânimo e, em casos mais extremos, a rejeição do bebê.

Segundo o médico psiquiatra Guido Boabaid May, em entrevista ao site fofurites.com, a depressão pós-parto é uma doença que, quando não tratada, pode tornar-se crônica e incapacitar a mulher para cuidar de seu filho, além de trazer grande sofrimento para ela e seus familiares. “É causada por uma combinação de fatores: genéticos, ambientais, psicológicos, hormonais e neuroquímicos e deve ser diferenciada da tristeza pós-parto, que pode ocorrer nos primeiros dias após o parto, é passageira e de curta duração”, explica.  Para May, a melhor conduta a ser tomada, é uma combinação de medicamentos e psicoterapia. De acordo com o psiquiatra, o teste farmacogenético, ferramenta da medicina personalizada que demonstra como cada medicamento se comporta em cada paciente a partir de uma análise de seu DNA, pode ser de grande utilidade, pois torna os tratamentos mais rápidos, seguros e eficazes.

A BBC Brasil conversou com três mães que tiveram depressão pós-parto. As três consideram que não receberam atenção adequada, seja da rede pública ou privada de saúde, e se viram alvo de comentários e situações que resultaram em um sentimento de culpa por estarem deprimidas.
"Todos têm um palpite. Se você cuida de você, do trabalho e da casa, está deixando bebê em segundo plano. Se foca inteiramente na criança, está relaxando com as outras áreas, ficando descuidada. Há sempre um comentário, seja de amigos, parentes, visitas. Mas ninguém para e perguntar como você está, como está se sentindo, se precisa de algo. A mulher se torna invisível", diz a fotógrafa Ly Pucca, que passou por três episódios de depressão pós-parto.

Depoimento de Ly Pucca:

A fotógrafa e doula Ly Pucca teve depressão pós-parto três vezes, para ela a invisibilidade da mulher é o pior aspecto do problema.

"Tive depressão nas três gestações. A primeira foi uma gravidez não planejada e muito complicada. Para a família do meu ex-marido foi uma gestação indesejada. Fui obrigada a casar, foi uma das coisas mais traumáticas da minha vida.
Fui forçada a fazer cesárea, em hospital particular. Era final de ano, e todos diziam que minha insistência por parto normal estragaria o Natal de todo mundo. Sempre quis ter parto normal.
Quando a Luiza nasceu, eu olhava para ela e não conseguia respirar. Eu achava que seria incapaz de cuidar daquele ser tão frágil. Passei um mês e meio chorando direto e, quando cheguei em casa, entreguei o bebê nas mãos da minha avó, que foi a única pessoa que me apoiou.
Eu não conseguia sair de casa e achava que ia morrer a qualquer momento. Quando a Luiza fez oito meses meu pai morreu, e aí tive sintomas de pânico mesmo, insônia, taquicardia. Depois de dois anos comecei a trabalhar, e só aí vi que estava melhor.
Ao longo do tempo tive duas péssimas experiências com médicos. Uma ginecologista me disse 'ah, não gostou do neném?' E outro me disse que era para eu 'parar de frescura'. Isso faz com que você se sinta ainda mais culpada. Se um médico te diz isso, como você se sente depois?
Uma vez procurei uma psicóloga e ela dormiu no meio da sessão. Outra vez fui a um psiquiatra e ele me receitou um remédio, mas eu não quis tomar.
Na segunda também tive depressão, mas foi bem mais leve. Na verdade, eu só descobri que foi isso que eu tive faz três anos.
Apesar do apoio do meu segundo marido e da minha mãe, sentia uma solidão absurda, não queria sair de casa, achava que iam roubar meu filho.
Já na terceira gestação eu houve vários problemas graves de saúde e tanto eu quanto minha filha quase morremos. Isso contribuiu muito. Eu me sentia muito culpada.
Eu atribuo as minhas três depressões a uma falta de conhecimento da minha parte, à questão hormonal, às pressões sociais pela maternidade perfeita, e à falta de ajuda profissional adequada. Hoje em dia gostaria muito de fazer terapia, mas não tenho condições financeiras, e não vejo na rede pública.
Só melhorei mesmo quando descobri, nas redes sociais, que muitas outras mães passavam pelo mesmo problema. Hoje só tenho vontade de ajudar, de perguntar do que elas estão precisando, pegar na mão e dizer 'eu já passei por isso, você vai conseguir; todo mundo pode passar pela mesma coisa, você não precisa ser a mãe perfeita'. A pior sensação é a invisibilidade."

Ly mora em São Paulo, tem 39 anos, é mãe de Luiza (16 anos), Pedro (7 anos) e Amanda (4 anos), e além de fotógrafa é doula, ativista e faz sessões de fotografia com mulheres como forma de empoderamento e recuperação da autoestima após a maternidade

Depoimento de Ana Lúcia Keunecke:

Para advogada Ana Lúcia Keunecke, criação de ONG ajudou no processo de recuperação da depressão pós-parto.

"Eu era advogada e tinha meu próprio escritório, trabalhando como autônoma, sem direito a licença maternidade. Era uma pressão. Na gravidez da minha filha correu tudo bem. Levava a Sofia comigo para audiências, ela ficava comigo o tempo todo. Ela nasceu em casa, e foi tudo muito tranquilo.
Com meu filho, quatro anos depois, foi bem diferente. Eu sentia muita raiva de tudo que me tirasse dele. Fui parando de comer, de tomar banho, de fazer as coisas. Eu chorava sem parar. Só entrava no chuveiro se ele estivesse me olhando, e eu pudesse vê-lo o tempo todo.
Minha parteira percebeu, duas semanas depois do nascimento dele, que eu poderia estar com depressão. Ao final do primeiro mês, eu tinha perdido 14 quilos, estava de cama e sendo medicada. Não conseguia mais andar, e foi aí que minha família percebeu e começou a me ajudar.
A depressão grave persistiu por seis a sete meses, mas a recuperação completa levou três anos. Foi quando eu pude parar de trabalhar por um ano e me dedicar à minha saúde e aos meus filhos.
Tive ajuda do meu marido e de uma pessoa para me auxiliar com as coisas da casa. Tenho certeza de que é muito mais difícil para as mulheres que não têm condições financeiras. Sei que sou privilegiada.
Tudo isso me fez mudar de vida, e vi que melhorei muito quando abracei a Artemis, como diretora jurídica, podendo ajudar outras mulheres ao batalhar por uma maternidade voluntária, prazerosa e socialmente protegida.
Defendemos que a mulher precisa ser protegida, amparada, precisa ter creches à disposição, educação, saúde, e que a maternidade tem que ser voluntária, ou seja, a mulher tem que poder escolher se quer ou não ser mãe.
Olhando para trás vejo que quando a gente se torna mãe é como se morresse uma mulher para nascer outra, e que não somos preparadas para este momento. É uma solidão, uma exclusão social, uma pressão de todo mundo, e isso reforça minha convicção de que precisamos lutar pela maternidade amparada e protegida socialmente."

Ana mora em São Paulo (SP), tem 41 anos de idade, é mãe de Sofia (9 anos), e Marcos (5 anos) e tem dois enteados. Além de advogada é diretora jurídica e fundadora da Artemis, organização que combate a violência contra a mulher e milita a favor da legalização do aborto

Depoimento de Dilssa Libério Soares:

Dilssa Soares diz que mulheres deveriam procurar ajuda profissional o mais rápido possível se identificarem sintomas:

"Na primeira gestação tudo correu bem. Foi muito tranquilo, da gravidez ao parto. Eu trabalhei até 20 dias antes de ela nascer, e minha filha Camila tem hoje oito anos.
Já minha segunda gravidez foi muito tumultuada. Os médicos me alertaram já no começo que eu estava com diabetes e que seria uma gravidez de risco, e isso me deixou preocupada. Fiquei com isso na cabeça, já me sentindo culpada.
Tentei fazer tudo certo a gestação inteira. Acabei sendo internada por conta da pressão muito alta, e ele nasceu quando eu estava no hospital, prematuro, com 32 semanas. O parto foi muito traumático, me deixaram sozinha numa sala, sem ninguém. Foi muito angustiante. Ele ficou na UTI neonatal por um mês.
Quando ele veio para casa muitas vezes ficávamos os dois chorando, eu com ele no colo. Eu me sentia na obrigação de fazer tudo. Dar banho, trocar fraldas, dar de mamar – mas eu não tinha vontade. Minha filha começou a ter problemas na escola, e ela sempre tinha sido muito calminha.
Na verdade eu nunca quis ter filhos, mas veio a Camila quando eu tinha 27 anos e depois de oito anos apareceu o Max. Estou buscando fazer laqueadura no SUS.
O pior foi que senti foi uma vontade louca com relação ao suicídio. Não conseguia respirar, tinha palpitações, suor frio. Um dia fui ao supermercado e estava muito cheio, entrei em pânico. Por dois meses não fui mais longe do que dois quarteirões, quase não saía de casa. Eu achava que se fosse além disso ia me jogar na frente de um carro. Era uma válvula de escape.
A minha patroa pediu para eu consultar um psicólogo. Quando fui marcar, era final de novembro e não tinha mais médico, ficou para janeiro. No começo do ano, quando chegou a consulta, os sintomas já tinham melhorado.
Se pudesse voltar atrás, teria procurado ajuda profissional logo no começo. Nunca fui oficialmente diagnosticada com depressão pós-parto, mas hoje sei que foi isso que tive.
Na minha opinião, a mulher tem que tentar identificar e procurar um psicólogo, um psiquiatra. Eu sou muito religiosa, e acredito que não fiz nada de ruim para mim ou meu filho porque pagaria por isso de acordo com minhas crenças, mas nem todo mundo tem essa estrutura."

Dilssa mora em Franco da Rocha (SP), tem 35 anos de idade, é mãe de Camila (8 anos) e Max (11 meses), e além de ser dona de casa, trabalha como cozinheira e já foi merendeira concursada, babá e empregada doméstica.

 

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 REFERÊNCIAS

Nova Alternativa Auxilia no tratamento da depressão Fofurites: Disponível em : https://www.fofurites.com/single-post/2017/06/21/Nova-alternativa-auxilia-no-tratamento-da-depress%C3%A3o-p%C3%B3sparto
Escola Nacional de Saúde Pública -  Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) -  disponível em:https://portal.fiocruz.br/pt-br/content/depressao-pos-parto-acomete-mais-de-25-das-maes-no-brasil
Reportagem BBC - Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160308_pesquisa_fiocruz_depressao_parto_jp