O que é a cetamina?

A cetamina, ou Ketamina e sua derivação Escetamina. é um agente anestésico do tipo dissociativo, utilizado desde a sua descoberta e sintetização na década de 1960. Ela surgiu em substituição à fenciclidina, com o objetivo de produzir menos efeitos colaterais.  

O fármaco se tornou popular devido à sua capacidade de produzir efeitos sedativos, analgésicos e amnésicos rápidos e às suas qualidades secundárias favoráveis, entre elas a broncodilatação e manutenção dos reflexos das vias aéreas e do tônus do sistema nervoso simpático. Estudos mais recentes indicam a existência de propriedades neuroprotetoras e anti-inflamatórias que antes eram desconhecidas.

A cetamina é uma opção que tem se tornado popular em cuidados pré-hospitalares e emergenciais e já é amplamente utilizada por anestesistas, por conta das suas propriedades e versatilidade. A cetamina também é utilizada atualmente em protocolos de baixas doses de analgésicos, como terapia auxiliar em bloqueios anestésicos de nervos locais, tratamento de doença reativa das vias aéreas, sedação em procedimentos cirúrgicos, depressão e ideação suicida. 

Neste artigo vamos falar com mais detalhes sobre a utilização da cetamina no tratamento da depressão

Farmacologia da Escetamina 

A escetamina se destaca pelo seu papel de antagonista não competitivo do receptor NMDA (N-Metil-D-Aspartato), um receptor ionotrópico do glutamato. Supostos contribuintes etiológicos da depressão, incluindo estresse e outras condições, são conhecidos por causar comprometimento estrutural e funcional de sinapses em regiões cerebrais envolvidas na regulação do humor e do comportamento emocional. 

Evidências dentro da literatura sugerem que, por meio do antagonismo do receptor NMDA, a escetamina produza um aumento transitório na liberação de glutamato, levando a aumentos na estimulação do receptor AMPA (ácido α-amino-3-hidroxi-5-metil-4-isoxazol propiônico) e, subsequentemente, a aumentos na sinalização neurotrófica que restauram a função sináptica nessas regiões cerebrais.

Quando a cetamina pode ser indicada para o tratamento da depressão?

Ns últimos 50 anos tivemos inúmeros avanços no tratamento dos transtornos depressivos, incluindo o surgimento de diversos fármacos antidepressivos, como os antidepressivos tricíclicos (AT), os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) e os inibidores seletivos da recaptação de serotonina e noradrenalina (ISRSN). 

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As taxas de resposta das medicações para doenças psiquiátricas costumam ficar entre 50% e 70% na maioria dos ensaios clínicos randomizados e controlados (ECRs). 

Dos indivíduos que não respondem ao tratamento, 10% a 30% apresentam sintomas  resistentes, além de dificuldades na função social e ocupacional, comprometimento da saúde física, pensamentos suicidas e aumento da utilização dos serviços de saúde.

E você sabia que cerca de um terço das pessoas diagnosticadas com depressão não respondem aos tratamentos até então conhecidos e aprovados? Isso aumenta a aflição do paciente, já que ele sente que não tem solução.

A ciência e a psiquiatria têm estudado e ido em busca de novas alternativas para os tratamentos de pacientes refratários, aqueles pacientes diagnosticados mas que não obtém resultado satisfatório apesar de terem recebido tratamento farmacológico e psicossocial. Uma dessas alternativas é a cetamina.

Pode-se chamar de Depressão Resistente ao Tratamento (DRT) aquela depressão grave com resposta fraca ou  insatisfatória  de  dois medicamentos  (em  dosagem  ótima  e  duração  adequada)  de  duas  classes diferentes de  antidepressivos.

Estima-se que  9  a  10%  dos  pacientes diagnosticados com depressão têm DRT. Atualmente, existem vários estudos em andamento e outros já publicados indicando que  a cetamina tem efeitos antidepressivos rápidos em pacientes com depressão resistente ao tratamento.

Como a cetamina age no tratamento da depressão?

Quando surgiu a terapia intravenosa com cetamina o National Institute of Mental Health (NIMH) considerou como sendo o avanço mais importante no tratamento antidepressivo em décadas.

Em  2000,  um  primeiro  relato  da  ação  antidepressiva  de  uma  dose  sub anestésica de  cetamina ocorrendo  em  poucas  horas,  ainda  que  em  uma  pequena  amostra  de  pacientes,  foi  um  trabalho  de referência  no  campo  da  pesquisa  de  transtornos  de  humor. Desde  esse  primeiro  relato  dos  efeitos antidepressivos  de  doses sub-anestésicas  de  cetamina,  estudos  confirmaram  repetidamente  seus benefícios  terapêuticos  no  transtorno  depressivo  maior,  bem  como  em  episódios  depressivos  em pacientes com transtorno bipolar.

O médico anestesista Tiago Gil, diretor do Centro de Cetamina, clínica de infusões de São Paulo, recentemente falou sobre a história da cetamina no podcast História pros Brother. Confira aqui.  

Os  efeitos  antidepressivos  da  cetamina  decorrem  do  aumento  da  liberação  pré-sináptica  de glutamato, com um aumento da sinalização celular no receptor glutamatérgico do tipo α amino-hidroxi-metilisoxazolácidopropiônico (AMPA)   relativo   ao   receptor NMDA.

Duas características dessa resposta antidepressiva chamam a atenção: primeiro, ela pode se  manifestar  em  minutos  ou  horas  após  a  dissociação  mental  transitória,  e  segundo  ter  ocorrido principalmente em pacientes resistentes ao tratamento. A taxa de resposta tem sido em torno de 50% em estudos controlados por placebo.

O lado positivo é a rapidez com que o medicamento começa a agir no organismo: em média de 1 a 5 minutos, tanto por aplicação na veia (cetamina) quanto por spray nasal (escetamina), e os efeitos iniciais podem durar de 25 minutos a 2 horas.

Os resultados são clinicamente ótimos, como:

  • diminuição da ansiedade; 
  • alívio da dor;
  • diminuição imediata de impulsos suicidas; 
  • e outros.

Por outro lado, existem alguns efeitos colaterais, que são geralmente esperados e controlados clinicamente, tais como dissociação (estado mental "desconectado" da realidade) e aumento de pressão arterial.

Seus resultados clínicos dependem do quadro da pessoa, como qualquer outra medicação.  

Como é administrada a cetamina? 

Tudo vai depender do objetivo almejado. A cetamina pode ser administrada via intravenosa, subcutânea ou sublingual. Quanto mais invasivo, maior é a possibilidade de efeitos colaterais.