Alguma vez você já tomou um medicamento que foi eficaz para outra pessoa e não fez efeito no seu caso? Seja um comprimido para dor de cabeça ou um antibiótico, muitas vezes a medicação não apresenta o resultado que você esperava. Não significa que o remédio não seja confiável, mas pode ser que seu organismo não reaja bem a ele.

Já faz algum tempo que médicos perceberam que as pessoas reagem de formas diferentes a um mesmo medicamento. Isso ocorre porque algumas variáveis genéticas interferem na forma como os medicamentos são absorvidos e circulam em nosso corpo.

Uma mutação genética pode fazer um paciente processar muito rápido uma substância, o que faz com que o remédio seja eliminado do organismo antes de oferecer algum resultado. Em outros casos, o gene pode fazer com que a pessoa tenha uma metabolização muito lenta, fazendo com que um medicamento fique concentrado no sangue por muito tempo, ocasionando efeito colaterais.

"Essa variabilidade começa no estômago e no intestino, determinando o quanto do medicamento será absorvido e irá para a corrente sanguínea. Alguns indivíduos absorvem mais, o que lhes garante um resultado melhor, e outros menos", explica o psiquiatra Wagner Gattaz, coordenador do Laboratório de Neurociências do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Universidade de São Paulo (USP), em uma reportagem da BBC.

Hoje já é possível para o médico prever como o paciente deve responder a dezenas de medicamentos do mercado graças à farmacogenética e aos testes farmacogenéticos. Esse ramo da ciência estuda como as variações genéticas impactam na resposta a medicamentos.

Com uma análise do DNA do paciente, o teste farmacogenético apresenta um painel de opções de fármacos indicados e contraindicados, permitindo que o profissional escolha medicamentos e dosagens de forma mais assertiva. A farmacogenética oferece uma segurança e maior assertividade nos tratamentos, além de evitar o uso excessivo de fármacos, eliminando opções que não trariam os resultados desejados.

Os benefícios da farmacogenética

Desde o ano 2000, existe o PharmGKB, banco de dados com informações públicas sobre farmacogenética. De lá para cá, essa ciência evoluiu muito e é cada vez mais parte da realidade clínica.

Em países como os Estados Unidos, algumas famílias já realizam o teste farmacogenético de crianças assim que elas nascem, como um tipo de exame do pezinho. Deste modo, as informações sobre como o organismo delas reage aos principais medicamentos são utilizadas para guiar tratamentos médicos desde o início da vida. Não estão relacionados a possíveis alergias, mas sim a efetividade do medicamento, auxiliando na melhor escolha médica para qualquer tratamento ou necessidade pontual.

A farmacogenética é também uma forma de evitar efeitos colaterais. Um teste farmacogenético oferece uma série de informações sobre o paciente, munindo o médico de dados para o manejo de medicamentos. Com isso, evita-se o uso de medicações que podem causar efeito indesejados.

Na Grã-Bretanha, 6,5% nas internações hospitalares são relacionadas a efeitos adversos de medicamentos. Em contrapartida, o Serviço Nacional de Saúde Britânico está estudando a possibilidade de aplicar o teste farmacogenético no tratamento de 65 diferentes condições médicas nos próximos anos.

Um dos casos em que a aplicação da farmacogenética é muito útil, é na prescrição da Varfarina, um anticoagulante sanguíneo que pode ser utilizado em alguns tratamentos. Sem o exame genético, médicos tinham dificuldade em identificar a dosagem ideal.

Isso porque uma variação no gene CYP2C9 permite que a substância fique no sangue por muito tempo, causando efeitos colaterais. Cerca de um terço das emergências de americanos idosos em hospitais acontecem por causa de complicações com esse medicamento.

A farmacogenética também pode guiar tratamentos com quimioterapia. Saber as substâncias e dosagens mais indicadas pode ser muito importante para pacientes oncológicos. Segundo David Kerr, professor da Universidade de Oxford, quatro em cada 100 pacientes que passam pelo tratamento morrem intoxicados.

O teste farmacogenético contribui, então, não só na qualidade de vida do paciente, como representa economia em relação a internações ou uso de medicamentos ineficazes e evita complicações graves quando mais se precisa de saúde.

Programas que cobrem casos de incapacidade a longo prazo oferecem teste farmacogenético

A depressão é uma das principais causas de incapacidade para o trabalho. Junto a ela, outras doenças com dor crônica podem ter o tratamento guiado com um teste farmacogenético e levar a resultados efetivos no tratamento.

Em 2017, a Sun Life, uma empresa canadense de serviços financeiros, participou com o Centre for Addiction and Mental Health do Canadá de um projeto piloto com farmacogenética. Eles ofereceram testes farmacogenéticos para beneficiários que viviam uma condição de incapacidade relacionada à saúde mental.

O resultado do experimento foi que 31% das pessoas teve redução dos sintomas depois de começar o tratamento guiado pelo exame.

Algumas empresas do Canadá também ofereceram o teste farmacogenético a seus empregados como um teste piloto. Com isso, conseguiram que funcionários que estavam afastados respondessem positivamente ao tratamento e pudessem voltar ao trabalho.

Referências: BBC , Benefits Canada , Economist ,