Dia 2 de abril é o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Atypical é uma série da Netflix que tem colocado o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) em pauta. O TEA ainda é pouco conhecido pela população em geral, mas falar sobre o tema é importante para discutir a inclusão de quem possui essa condição e vencer estigma.

A série Atypical tem feito isso com propriedade. A história mostra o dia a dia da família de Sam Gardner, um jovem com autismo que tenta levar a vida o mais próximo do normal possível em meio ao caos do Ensino Médio. Os episódios mostram não só o desafio de Sam, mas de toda a família.

Com um tom leve e bem humorado, é possível conhecer mais sobre os sintomas do autismo, as limitações de Sam, como isso impacta na vida dos pais e no dia a dia familiar.

 

Mas o que é autismo?

O Transtorno do Espectro do Autismo reúne desordens do desenvolvimento neurológico presentes desde o nascimento ou começo da infância. Entre elas estão:

  • Autismo Infantil Precoce, 
  • Autismo Infantil, 
  • Autismo de Kanner, 
  • Autismo de Alto Funcionamento, 
  • Autismo Atípico, 
  • Transtorno Global do Desenvolvimento sem outra especificação, 
  • Transtorno Desintegrativo da Infância, 
  •  Síndrome de Asperger.

As causas do TEA ainda não são totalmente conhecidas. A pesquisa científica sempre concentrou esforços no estudo da predisposição genética, analisando mutações espontâneas que podem ocorrer no desenvolvimento do feto e a herança genética passada de pais para filhos. Porém, cientistas encontraram evidências de que as causas hereditárias explicariam apenas metade do risco de desenvolver o transtorno

Alguns fatores ambientais podem ter relação com o desenvolvimento do autismo. Exposição do feto a estresse, a infecções, a substâncias tóxicas, complicações durante a gravidez e desequilíbrios metabólicos teriam o mesmo peso na possibilidade de aparecimento do distúrbio.

 

Os sintomas do Transtorno do Espectro do Autismo

Atypical mostra todos os desafios de Sam e como o autismo impacta em sua rotina. Ao longo dos episódios, é possível perceber como se manifestam os sintomas do transtorno e como isso reflete na escola, no trabalho e no ambiente familiar.

 

Déficit na comunicação social ou interação social

Na série, Sam tem dificuldade para interagir com pessoas estranhas e fazer amigos devido à sua dificuldade de comunicação. Ele se detém ao sentido literal das palavras e possui dificuldade em compreender expressões, metalinguagem e outras formas de comunicação que não sejam diretas.

Em suas falas, o jovem é sempre muito objetivo e sincero. Por isso, muitas vezes acaba sendo visto como inconveniente ou rude por quem não conhece seu diagnóstico.

Há também uma dificuldade de manter o contato visual, expressão facial, ou até mesmo o contato corporal.

O apoio familiar e de seu melhor amigo, Zahid, são essenciais para ele compreender o mundo ao redor e se inserir socialmente.

 

Padrões restritos e repetitivos de comportamento

A pessoa com autismo tende a desenvolver alguns padrões de comportamento, pois isso a ajuda a se sentir segura e confortável. Em Atypical, Sam tem alguns rituais estabelecidos e, quando eles não se cumprem, o jovem fica nervoso, ansioso e com uma sensação de perda de controle.

Alguns comportamentos ajudam a lidar com situações desconhecidas. Por exemplo, o jovem protagonista tem o hábito de fazer listas para todas as situações, desde as tarefas que tem por fazer até para identificar sinais de que ele está interessado em alguma garota. 

 

Interesses fixos

O portador do TEA pode desenvolver um interesse fixo por um assunto pouco usual e adquirir um grande conhecimento sobre este tema. Sam Gardner é aficionado na vida marinha. Ele passa horas e horas assistindo documentários sobre a Antártida e sabe tudo sobre pinguins.

 

Hipo ou hipersensibilidade a estímulos sensoriais

Pessoas com autismo tendem a ter hipo ou hipersensibilidade, seja ao toque, a luzes ou ao barulho. Por isso, frequentar ambientes com aglomerações ou até mesmo a escola podem ser extremamente perturbadores.

O personagem da série da Netflix está sempre munido com seu potente fone de ouvido, que o ajuda a ter um isolamento acústico para enfrentar espaços como o agitado corredor do colégio durante o intervalo.

 

Todos os pacientes com autismo convivem com essas dificuldades, mas cada um deles é afetado em intensidades diferentes. Apesar de ainda ser chamado de autismo infantil, pelo diagnóstico ser comum em crianças e até bebês, o TEA é uma condição permanente, que acompanha a pessoa por todas as etapas da vida. Com isso, é muito importante desenvolver estratégias que permitam lidar com os sintomas.

 

Como é feito o diagnóstico de autismo

É possível identificar os primeiros sinais do Transtorno do Espectro Autista entre 1 e 2 anos de vida. Porém, em casos mais sérios, os casos podem ser detectados antes mesmo dessa idade.

A partir dos 12 meses, as crianças autistas não apontam com o dedo, demonstram mais interesse nos objetos do que nas pessoas, não mantêm contato visual efetivo e não olham quando chamadas. É importante destacar os raros casos de regressão do desenvolvimento, identificados comumente após ao menos 2 anos de desenvolvimento típico (denominado como transtorno desintegrativo da infância).

O diagnóstico deve ser realizado por um profissional especializado: neuropediatra ou psiquiatra pediátrico. O diagnóstico do autismo é feito por observação direta do comportamento e uma entrevista com os pais e cuidadores, que pode incluir alguns questionários padrão de diagnóstico.

 

Como é o tratamento para o Transtorno do Espectro Autista

Não há uma forma de se curar o autismo, sendo uma condição que acompanha a pessoa por toda a vida. Mas o tratamento é essencial para que o paciente possa desenvolver habilidades, criar estratégias para lidar com os sintomas e ter qualidade de vida.

O acompanhamento médico multidisciplinar, com pediatra, psiquiatra, neurologista, psicólogo e fonoaudiólogo, entre outros profissionais, é o tratamento mais recomendado para ajudar no desenvolvimento da criança autista. A conduta indicada vai depender da intensidade do distúrbio e da idade do paciente e deve ser decidido junto aos pais.

No geral, o tratamento associa diferentes terapias para testar e melhorar as habilidades sociais, comunicativas, adaptativas e organizacionais. A rotina de cuidados pode incluir exercícios de comunicação funcional e espontânea, jogos para incentivar a interação com o outro, aprendizado e manutenção de novas habilidades, e o apoio a atitudes positivas para contrapor problemas de comportamento. É muito popular a adoção das abordagens terapêuticas Análise Aplicada do Comportamento e Terapia Cognitivo-Comportamental.

As terapias são combinadas com remédios para tratar condições associadas, como insônia, hiperatividade, agressividade, falta de atenção, ansiedade, depressão e comportamentos repetitivos. As avaliações são realizadas a cada 3 ou 6 meses para entender a necessidade de mudanças na abordagem ou intensidade do tratamento.

 

O impacto do autismo no contexto familiar

Outro elemento essencial no tratamento é o treinamento com os pais. O contexto familiar é fundamental no aprendizado de habilidades sociais e o trabalho com os pais traz grandes benefícios no reforço de comportamentos adequados. Também é comum que os profissionais que tratam a criança indiquem acompanhamento psicológico para a família, devido ao desgaste emocional que o distúrbio pode provocar.

Outro ponto é que o déficit central do autismo é social. A maioria dos pais espera ter uma relação acolhedora e amorosa com o seu filho. É desorientador descobrir que se tem um bebê que não gosta de ser segurado, ou uma criança que não olha nos olhos. Os pais se adaptam, aprendendo a amar do modo que a criança ama, mas não sem antes terem passado por confusão e dor.

Um terceiro aspecto é que, não importa qual seja o diagnóstico específico dentro do TEA ou o QI, crianças no espectro do autismo geralmente têm problemas de comportamento, que vão de recusa a dormir à birras intensas e frequentes e extrema rigidez. Esses comportamentos podem fazer com que o convívio com elas no dia a dia seja muito penoso, levando a um outro tipo de culpa: o tipo que se experimenta ao não se sentir amoroso para com uma criança difícil. Além disso, tais comportamentos desgastam toda a família, impactando irmãos e casamentos.

 

Contexto de estresse pode levar a casos de depressão na família

Pesquisadores têm tentado compreender quais pais de crianças com TEA estão tristes e estressados e quais sofrem de depressão clínica. Eles têm explorado também como o estresse e a depressão podem estar relacionados. 

Tanto a depressão quanto o estresse podem ser impactados por fatores neurobiológicos, tais como neurotransmissores que não estejam trabalhando apropriadamente. Nestes casos, as medicações antidepressivas são de grande ajuda para reequilibrar a química cerebral.

Mas algumas configurações mentais também podem ajudar a manejar essas emoções. Atitudes como um posicionamento otimista, a habilidade de aceitar uma situação e seguir em frente, uma tendência em lidar com o problema através da ação, crenças espirituais, altruísmo e ativismo podem fazer a diferença. 

A terapia cognitivo-comportamental é um exemplo de tratamento que ajuda as pessoas a mudarem sua forma de pensar para enfrentarem a depressão. 



Para quem ainda não conhece o seriado, existem 3 temporadas disponíveis na Netflix. A 4ª temporada de Atypical estreia no segundo semestre de 2021 e deve encerrar a história. Confira o trailer: